Narrador ON:
Harry passara os dois primeiros dias em Doncaster desfazendo
toda aquela bagunça, esvaziando todas as caixas e organizando tudo na pequena
casa que conseguiu alugar com suas economias. Quinhentos dólares não serviam
para quase nada. E ainda precisava alimentar Milk, que se esfregava em suas
pernas pedindo por algum alimento. Somente no terceiro dia ele pode finalmente
sair de dentro de sua “toca” e conhecer novos ares. A rua felizmente era
pequena e os vizinhos realmente adoráveis. Suzi, a velhinha da casa ao lado
prometeu lhe levar um bolo de cenoura no dia seguinte como forma de boas
vindas. Cat e seu marido Thomas ofereceram-se para hospeda-lo caso seu dinheiro
se esgotasse antes de ele conseguir algum emprego. Ernest, um velho simpático
que vive sozinho, na casa em frente a sua, ofereceu-se para doar alimentos,
caso faltasse algo em sua geladeira. A
terceira casa a frente da sua estava vazia naquele momento, ele decidiu então
que se apresentaria em outra ocasião.
No quarto dia, ele finalmente conseguiu um emprego, seria
balconista em uma padaria. O salário não era grande, mas conseguiria ter uma
vida boa e talvez, em alguns meses, pudesse alugar outra casa, um pouco mais
espaçosa. Naquela tarde mesmo já fez seu primeiro expediente e recebeu pelas
horas trabalhadas. Passou em um mercado na esquina da outra rua e comprou uma
comida especial para sua felina. O bichano agradeceu-o com uma lambida na
bochecha.
No quinto dia, Harry trabalhou durante o dia e compareceu a
faculdade no turno da noite. Mal comeu no intervalo de suas obrigações. E
quando chegou em casa estava exausto, com dor nos pés e muita fome. Ele
realmente havia pensado que a vida sendo independente era fácil. O garoto se
jogou no sofá e fechou os olhos. O relógio marcava onze e quarenta e seis e ele
nem havia tomado sequer um banho. Assim que o fez, fritou alguns ovos com
pedaços de carne picadas ao meio e cortou uma fatia do pão de seu local de
trabalho. Sentado a mesa saboreando aquela refeição e com o corpo limpo parecia
ter tirado no mínimo três anos de suas costas.
No sexto dia o rapaz acordou muito cansado, porém precisava
comparecer ao trabalho. Pôs em sua cabeça que estava assim por que não estava
acostumado com essa correria, logo estaria mais disposto. Seu dia na padaria foi corrido, era o dia
mais movimentado da semana. E a faculdade não perdoava atrasos, infelizmente
naquele dia ele havia ficado seis minutos para trás e precisou esperar para
entrar na sala. Enquanto isso descansou um pouco suas pernas doloridas. Ele
estava mesmo um caco. E já havia chegado a conclusão de que aquela vida não
fora feita para ele.
Harry ON:
Somente na manhã de domingo eu dei por falta de Milk. Ela
estava sempre atrás de mim por onde quer que eu andasse e agora não está em
lugar nenhum desta casa. Ela não me pediu mais sua ração matinal e não pediu
que eu a colocasse debaixo das cobertas. Meu coração apertou-se ao pensar que
ela poderia estar passando fome ou frio, ou ainda pudesse ter sido atropelada e
um humano sem coração jogado seu pequeno corpo em algum buraco para outro
animal comer. Minha pobre Milk. E a culpa de tudo isso é minha, ela gosta muito
de atenção e nos últimos dias não tenho conseguido fazer com que ela se sinta
tão bem assim. Eu sou um péssimo irmão. Eu sou um péssimo filho. E agora também
um péssimo pai. Parabéns Harry!
Vasculhei por todos os cantos da rua e não encontrei nenhuma
pista. Então decidi pedir a cada um dos vizinhos conhecidos se tinham
encontrado ela. Apreensivo em casa porta que bati. A terceira casa chegou ,
prometi a mim mesmo vir até aqui me apresentar e vou aproveitar este momento
para procurar a minha preciosidade. Precisou apenas duas batidas para que um
garoto que aparentava ser mais velhos, com belos olhos azuis que me causaram
certo arrepio e dono de cabelos arrepiados e morenos abrir a porta. Ele ainda
usava um pijama cinza e pantufas estofadas em forma de coelho nos pés.
- Olá, sou Harry Styles, seu novo vizinho – estendi a mão – é um prazer conhece-lo.
Ele me encarava confuso, o que me fez pensar se eu estava
com pasta de dente nas bochechas ou com comida na minha roupa. Certifiquei-me
que nada estava errado comigo. Só então observando bem seu rosto pude perceber
o quão belo era. Me contive em elogia-lo naquele momento.
- O que está fazendo na minha casa às – olhou para o relógio
de pulso – OITO E MEIA DA MANHÃ – gritou- Você não dorme, Harry ?
Ele acha oito e meia, tarde? Há esta hora minha mãe já tomou
o café da manhã, arrumou todos os papéis da empresa em que ela trabalha e foi
fazer academia. Minha irmã já deve estar trabalhando há mais de uma hora. E ele
acha cedo? Deve ser mais um filhinho de papai.
- Eu d-durmo, mas – fiquei muito nervoso para falar sem
gaguejar – E-eu acho que perdi m-minha gatinha. Você a viu?
Estava com muito medo de ele rir da minha cara e me achar o
maior banana do mundo. Ao invés disso estava curioso, fez várias perguntas
sobre como ela é e se ela tinha algum objeto que a identificava. Eu lembro-me da coleirinha que comprei logo
que a achei jogada na rua. Uma coleira cor-de-rosa com um pingente em formato
de flor. Eu mesmo escolhi esse símbolo.
Ele parecia interessado demais nela. Não duvido que não
tenha roubado a minha menina. Sabe-se lá o que está fazendo com ela. Mas... Ela
ouviria a minha voz e correria até mim, se estivesse por aqui. Alguém a pegou,
eu sei disso. E ele também.
- Seu bichano está dormindo na minha cama – meu coração deu
uma reviravolta – Se quiser, pode ir lá busca-la.
Eu corri até o cômodo indicado por ele e a encontrei em um
sono tranquilo sobre o travesseiro. Por alguns segundos observei o quarto,
pôsteres na parede, nenhuma foto nos álbuns, um cheiro de cereja forte no ar e
o vento fraco que soprava pela janela. Peguei Milk no colo e a repreendi por
ter sumido da minha vista, também contei sobre ter ficado preocupado com sua
saúde. Agradeci ao meu vizinho e saí de dentro de sua casa com o meu tesouro
nos braços.
Eu estava radiante naquela manhã. Depois do susto, ela ficou
o dia todo por perto. Enquanto eu limpava a casa ela andava junto comigo.
Enquanto eu comi, ela permaneceu sentada na cadeira ao lado, e quando peguei o
cobertor e fiz pipoca de caramelo para olhar o filme, ela se aninhou encostada
ao meu peito. Enquanto eu dormia, ela deitava sobre a minha barriga e fazia o
mesmo. Eu não sei o que faria sem ela.
Louis ON:
Aquela gatinha linda estava na minha porta pela manhã, no
sábado. Notei que tinha dono, pois usava uma coleira igualmente bela. Eu sempre
amei gatos brancos. Peguei-a no colo e levei até a cozinha, dei a melhor comida
que eu havia feito para consumo próprio e a vi comer até saciar toda a sua
fome. Ela então lambeu o meu pé e sentou no meu colo sobre a cadeira. Ela
definitivamente seria minha agora, seja lá qual for o descuidado que a deixou
desprotegida em algum lugar do mundo. Ela era como uma sombra, aonde quer que
eu fosse, ela estava. Sentia-me solitário naquela casa e a companhia dela me
fazia sentir vivo. Ela parece ter gostado do meu cheiro.
À noite, ela dormiu comigo. Esquentou-me e me deu carinho.
Seu ronronar soava fraco e me fez pegar no sono rápido. Infelizmente no domingo
um garotinho que parecia ser muito irresponsável mesmo bateu a minha porta
perguntando por sua felina. Fiz várias perguntas para certificar-me que era a
minha pérola. Eu já havia dado um nome para ela. Pérola. Ela já era minha, ou
pelo menos eu pensava que era.
Em um misto de raiva por tê-la perdido e um pouco de raiva,
apontei para o garoto onde ficava meu quarto. Eu a havia visto lá minutos atrás
em um sono profundo. Agora eu o pegava examinando os detalhes do cômodo, antes
de pegar a felina no colo e sair rápido pela porta da frente, me deixando
sozinho novamente. Eu e os meus malditos pensamentos nos olhos verdes do garoto
que perdeu seu animal de estimação.
Que merda, Louis! É só um garoto.
Lindo, por sinal. Porém, um garoto. Ele deve ter um seis
anos a menos que você, vá procurar alguém da sua idade. Oh, mas ele me atraiu.
Ele não era de se jogar fora. Harry Styles levou Pérola, mas deixou seu cheiro.
E que cheiro delicioso.
